Sobre viagens, redes sociais e a grama com filtro verde do vizinho.

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A gente precisa conversar sobre nossas fotos de viagem. Sobre como elas têm ficado cada vez mais perfeitas e nossas viagens, cada vez mais vazias.  Abra seu Instagram, olhe suas fotos com cuidado e responda sinceramente: quanto desses cliques representam momentos pra recordar e quantos são uma tentativa de fazer uma imagem igual a tantas que você viu pelas redes sociais? Pense aí: quanto você se divertiu e quanto você se esforçou pra parecer estar se divertindo?

Antes que alguém me acuse de hipocrisia, preciso deixar uma coisa bem clara: tô aqui pra dividir os conselhos que dou pra mim mesma. E não é a primeira vez que eu me aconselho sobre isso. Há mais ou menos um ano me caiu essa ficha, enquanto eu tentava fotografar a lua em vez de parar pra vê-la nascer, e eu escrevi em letras garrafais:

NÃO ADIANTA REGISTAR EM PIXELS A LEMBRANÇA DE UM MOMENTO QUE A GENTE NÃO VIVEU DE VERDADE.

Mas vira e mexe eu me pego ignorando essa máxima. Na minha viagem mais recente, eu encasquetei que queria uma foto no barco, olhando fingidamente pro horizonte, como se não fizesse ideia de que tinha alguém me fotografando. Esse alguém, no caso, era minha mãe que custava a parar em pé com o balanço do mar, clicando incessantemente mil opções da mesma cena de mentira (sim, ela é animada desse nível). Eu demorei um tanto bom pra percecer que não estava aproveitando o passeio em nome de uma foto totalmente forjada, e pior, ignorando o risco de ver minha mãe estabacada no convés ou sendo atirada ao mar, me deserdando antes de chegar na água. Só parei de insistir e comecei a curtir quando achei que a foto tinha ficado exatamente como eu imaginava. Acontece que não ficou. Era pra ser uma foto plena, mas eu saí com o pé sujo de andar descaça no barco e sem um cotovelo. Juro que eu considerei apagar a sujeira do pé e colar um cotovelo com Photoshop. Mas pra quê? Pra quem?

Eu me divirto bastante fotografando e sendo fotografada nas minhas viagens, não vou negar. Eu faço com capricho. Pode dar uma olhada no meu feed e você vai perceber que tem um cuidado ali. A questão é que eu não sei se esse cuidado todo existiria se, no fundo, eu não quisesse imitar a foto perfeita da viagem perfeita da vida perfeita dos outros. Mas será que é tudo tão perfeito assim? Já viu os desabafos que os influenciadores de viagem têm postado ultimamente?

Não é à toa. Dá uma trabalheira danada produzir, enquadrar, aparecer na cena e ainda editar uma foto pra que ela se destaque no meio de tantas outras. Dá agonia esperar pra ver se tanto esforço vai se traduzir em curtidas e comentários, ainda mais quando tem um terceiro pagando a conta. Vi gente super bem-sucedida nesse mercado se vendo obrigada a dar um tempo pra não pirar com as comparações e com a pressão pra se expor. Vi gente contando que ficou doente de tanto editar foto até muito tarde da noite e acordar de madrugada por dias e dias seguidos pra fotografar nos pontos turísticos mais famosos sem ninguém por perto. O resultado são imagens de tirar o fôlego, mas que tipo de viagem elas inspiram?

Está acontecendo com a indústria das viagens o que acontece há muito tempo com a indústria da beleza: uma enorme ansiedade em torno de padrões estéticos impossíveis de atingir sem artificialidade. Pense nisso toda vez que você ficar meio pra baixo porque suas fotos de viagem não são tão legais quanto as dos outros.

lembre-se: grama digital do vizinho não é tão verde quanto parece.

Ali tem filtro, tem preset, tem look na mesma palheta de cores da paisagem, tem poses ensaiadas, tem 567 tentativas até que se chegue ao resultado desejado, tem muito tempo investido nisso tudo. E tempo é algo que a gente tem que saber aproveitar muito bem quando tá viajando.

Não sei você, mas eu viajo porque amo viajar e não porque ganho a vida com isso. Seria meu sonho? Seria. Mas parece que essa necessidade de perfeição tá transformando o sonho de muita gente em pesadelo e deixando o conteúdo de todo mundo meio igual. Não quero isso pra mim, não.

Se você como eu banca as suas próprias viagens e não tem compromisso com marcas e parcearias, pense aí que preço você está disposto a pagar pra ter fotos perfeitas. Se você trabalhou o ano inteiro pra estar ali, pense se você está realmente fazendo valer seu tempo e seu dinheiro.

E tem outra: no nosso país em crise, com gente morando na rua, a gente discute se gosta mais de Paris ou de Nova Iorque. Viajar é um privilégio. Você que tem a chance de viajar, nem que seja pra cidade turística ali do lado, precisa entender o tamanho desse privilégio pra parar de desperdiça-lo tentando impressionar os outros.

Isso não é pra fazer você sentir culpa. É pra ajudar a reconhecer que a sua vida é cheia de momentos bons e que suas viagens podem ser ainda mais incríveis se você aproveitá-las de verdade.

Viver intensamente uma viagem é algo muito transformador.

A gente melhora como pessoa e, quando volta, melhora o nosso entorno. Então bora fazer nossas viagens renderem momentos que valham a pena, trazer  vivências genuínas na mala, experiências inspiradoras de verdade mesmo. Bora aproveitar o tempo fora da rotina pra aprender com o que é diferente, olhar o mundo com outros olhos, se colocar no lugar do outro em vez de se comparar com o outro.  Se der pra tirar fotos lindas enquanto isso, ótimo. Se não der tudo bem, fotos imperfeitas também contam boas histórias. Inclusive as com pé sujo e sem cotovelo.

Esse texto foi baseado num papo de viajante que eu tive com @tikdeviagem, @omundoeminhasvoltas, @viagensdagueu, @cariocasemfronteiras, @viagensemenus,  Obrigada, meninas, pela inspiração!

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