10 coisas que você nem imagina sobre o harém mais famoso da Turquia

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Histórias antigas de sultões e seus haréns cheios de odaliscas deixam muita gente fascinada, né?

O mais conhecido harém de todos foi o do palácio Topkapi, em Istambul, que chegou a abrigar nada menos que 1000 moçoilas. Um lugar com essa mulherada toda reunida, treinada exclusivamente pra entreter e bajular um único homem pode parecer o paraíso na terra pra alguns. Mas o harém otomamo era muito mais do que um bordel particular gigante. Na verdade, era bem diferente disso. Vem descobrir 10 coisas que você nem imagina sobre como era o harém mais famoso da Turquia e o que realmente rolava lá dentro.

aposentos da mãe do sultão harem turco

1. O harém imperial existia para garantir que o sultão tivesse um herdeiro

O Império Otomano durou 6 séculos, de 1299 até 1923 e teve 36 sultões. Dá pra imaginar que a configuração e o funcionamento do harém imperial foi mudando ao longo desse tempo todo, né? Mas sua função primordial era ter certeza que o sultão conseguiria ter um filho homem pra governar depois dele. Parece uma bela desculpa pra safadeza (e talvez fosse um pouco), mas antigamente esse negócio de ter filho era bem mais arriscado do que hoje. Não existia exame pré-natal e muitos bebês nem chegavam a nascer ou morriam logo depois de vir ao mundo. Era bem comum que as mães morressem no parto também. E, como meninas não podiam herdar o trono, os otomanos acharam mais jogo encher o palácio de mulheres pra aumentar as chances de uma delas ser sorteada com um espermatozóde imperial Y e gerar um sultão júnior que sobrevivesse até a idade de governar.

sultões turquia harém
Tem 36 sultões aí. Pode contar. 🙂

Além disso, tinha uma questão política também. Os sultões, estrategicamente, se casavam com filhas das famílias nobres mais influentes do império. Eram permitidas  quatro ou no máximo cinco esposas oficiais. Se uma delas fosse mãe do herdeiro, a família dela se tornaria mais influente ainda e potencialmente perigosa pros interesses do sultão de situação (esse poder todo você vai entender melhor no tópico 4). Caso o sultãozinho fosse filho de uma zé-ninguém, tava tudo em casa. Espertinhos eles.

2 . Não eram só escravas que viviam no harém

Nas casas tradicionais islâmicas, harém era o nome da ala reservadas às mulheres, com entrada proibida para os homens de fora. Lá viviam as esposas, a mãe, as irmãs e as filhas do dono da casa. Já nos haréns dos sultões e de outros poderosos do Império Otomano, além das mulheres da família, também viviam as concubinas, aias, copeiras, arrumadeiras, babás e outras serviçais. Essas últimas sim, eram escravas.

Elas vinham de todos os cantos do império e de regiões vizinhas, compradas em marcados de escravos ou trazidas como prisioneiras de guerra. Muitas eram sequestradas na porta de casa e oferecidas por chefes de Estado como presentes para o sultão.

Segundo o pintor Léon François Comerre, as mulhres do harém eram assim:

como era as mulheres do harém palácio istambul

harem-da-turquia

Ah, é bom saber que essas pinturas, e muitas outras que influenciaram as imagens que vem à nossa mente quando pensamos em um harém, foram feitas num período chamado Orientalismo. Culturas consideradas exóticas entraram na moda e pintores de da Europa Ocidental faziam retratos dos famosos haréns sem nunca se quer ter pisado num deles, menos ainda quando as mulheres do sultão estavam à vontade, 100% de boa e sem roupa.

Durante o Império Otomano, a Circassia ganhou fama por ser o lugar de onde vinham as mulheres mais lindas de todas. E onde é a Circassia? Eu também não fazia ideia. Descobri que é uma região que hoje se chama Krasnodar Krai, o que não ajudou nada mas, enfim, é uma divisão federal da Rússia, ali perto da Turquia.

No harém, as escravas comuns ocupavam aposentos coletivos, enquanto a mãe, irmãs, as esposas e filhas, chamadas de Sultanas, e as escravas concubinas preferidas do sultão tinham seus quartos luxuosos, com mordomias e presentes caros, entre outros mimos e privilégios.

3 – Muitas mulheres do harém se quer chegavam a ver o sultão

Depois de levadas ao palácio, as escravas eram pré-selecionadas e examinadas da cabeça aos pés pra serem treinadas e só então ocuparem seus postos. Elas tinham aulas de música e dança, aprendiam a recitar poemas e tocar instrumentos, além é claro de serem educadas nas “artes do amor” e aí sim, se tornavam odaliscas. Só as mais bonitas, talentosas e bem treinadas eram escolhidas para serem apresentadas ao sultão e, quem sabe, passar uma noite com ele. Se não passassem na peneira, elas acabavam sendo direcionadas para serviços de apoio e, quanto o sultão fazia suas visitas ao harém, essas moças era tiradas de vista.

Por outro lado, ser selecionada significava ter a chance de uma vida nova, porque se conseguissem conquistar o sultão e se tornar uma das preferidas, elas subiam na hierarquia do harém, deixavam de ser meras escravas e começavam a usufruir de um monte de regalias.  Engravidar, então, era uma dádiva, porque mesmo não sendo de linhagem nobre, um dia elas poderiam se tornar mãe de um sultão. Pensa que chic!

Por causa disso, algumas famílias pobres vendiam suas filhas aos mercadores de escravos 🙁 tanto pra ganhar uns trocados, quanto pra que elas tivessem a oportunidade de enlaçar o sultão de vez.

Mercado de escravos na região da Crimea
Mercado de escravos na região da Crimea

4. Girl power – ou mamãe mandou

Quem mandava e desmandava no harém não era a primeira esposa, nem uma governanta durona, muito menos um servo de confiança. Era a mãe do sultão. Era ela quem administrava tudo por ali, escolhia a dedo as odaliscas que o sultão iria conhecer e não só era a mulher mais poderosa do palácio como a mais poderosa de todo o império.

Quando seu filho herdava o trono, ela ganhava o título nobre de Valide Sultan e tinha uma influência danada sobre todas as decisões políticas que o rapaz tomava. No retrato aí ao lado está uma delas, Emetullah Rabia Gülnuş Sultan.

harém istambul turquia mãe do sultão

Outra função das Valide Sultans era fazer obras de caridade e mandar construir escolas, hospitais e mesquitas. Por isso, além de apitarem dentro do palácio, elas também eram super queridas pelo povo, o que as deixava mais poderosas ainda. O nível de autoridade das Valide Sulatans chegou a um ponto tal que houve um período do Império Otomano batizado de Reinado das Mulheres. Numa época tão malucamente machista, é quase inacreditável o fato dessas mulheres terem tanto poder assim. Mas tinham. E muito. Porque, afinal, “um sultão poderia ter quantas concubinas desejasse, mas tinha apenas uma mãe.”

5 – O harém era vigiado 24h por guardas eunucos

Com tantas mulheres lindas confinadas em um mesmo espaço, o sultão precisava ter certeza que elas não escapariam para o lado de fora e, principalmente, que nenhum engraçadinho daria as caras no lado de dentro. Nosso guia em Istambul disse que a primeira estratégia dos sultões foi colocar africanos montando guarda nos portões do harém, porque além de serem super fortes fisicamente, se algum deles engravidasse uma mulher lá de dentro, seria muito fácil descobrir, assim que o bebê nascesse. Eu não achei confirmação sobre isso nas minhas pesquisas internet a fora, mas a outra parte da história que guia contou tem confirmação pra todo lado: os sultões passaram a escalar guardas africanos eunucos pra cuidar da segurança de suas mulheres. Durante um período, eles eram castrados, só pra impedir que gerassem filhos, mas depois de um tempo, passaram a ter seus pipicos completamente retirados pra poder cumprir somente suas funções oficiais, sem fazer hora extra para as moças do harém.

Guardas eunucos no harém

Do lado de dentro do harém,trabalhavam eunucos brancos, também completamente castrados. Eles serviam como tutores e ajudavam a manter a paz na casa.

6 – Só uma de cada vez

Lembra das pinturas orientalistas que eu falei lá em cima, no item 2? Então, por causa delas, é bem comum que as pessoas pensem que o sultão fazia altas festinhas no apê com todas as suas centenas de mulheres de uma vez. Mas a verdade é que, costumeiramente, só uma mulher poderia ocupar a cama do sultão a cada noite.

harém istambul palácio topicapi
Gosto muito de você, leãozinho.

 

Isso era tanto por questões religiosas, quanto por questões práticas. Como a função principal delas era gerar um sultão baby, ficaria difícil demais monitorar as possíveis grávidas se mais de uma dormisse com o sultão numa mesma noite, por várias noites seguidas. Existia uma agenda organizadinha de festas e encontros íntimos. Nas festas, as odaliscas entretinham o Sultão com música, poemas e coreografias em conjunto, mas na hora de ir pra cama ele escolhia uma e pronto. Pensa na ciumeira…

 7. Os filhos homens do sultão também viviam no harém

Os príncipes otomanos tinham aposentos separados das concubinas no harém, mas eles viviam de baixo das asas de suas mamães e só saiam quando tinham entre 14 e 16 anos de idade. Nessa época, eles eram enviados para governar províncias do império e aí sim tinham direito a ter suas próprias odaliscas. Eles costumavam levar uma turma das mulheres do pai pra poder começar seu próprio harém longe de casa e suas mães também iam junto pra aconselhá-los. Durante um período do império, os príncipes foram proibidos de governar províncias e acabaram confinados no harém do pai. Foi aí que a população de mulheres saltou de mais ou menos 200 pra cerca 1000. Imagina uma coisa dessas?

8. Um dos sultões endividou o estado comprando presentes pras suas mulheres

Bem nessa época de super população do harém, o Sultão Ibrahim, que fazia muita questão de ver suas mulheres cobertas de luxo, quase afundou as finanças do palácio comprando jóias, peles e tecidos caros de presente pra elas. Ele tinha mais favoritas do que o normal e, pra agradar a todas, fez um buraco nas contas do império. Além disso, ele também ordenou obras pra aumentar o tamanho do harém pra poder comportar todas as suas moças com mais conforto.

Sultão Ibrahim presentava suas mulheres
Esse era o Sultão Ibrahim

9 – Uma das escravas tanto fez que conseguiu se tornar a mulher mais poderosa do império

Essa história é muito sensacional. Uma moça de 15 anos de idade chamada Aleksandra foi sequestrada de sua família que vivia onde hoje é a Ucrânia. Ela foi vendida num mercado de escravos na Crimea e entrou na leva das mulheres que foram dadas de presente ao harém imperial do Sultão Süleyman – o Magnífico, que reinou de 1520 a 1566. Depois de passar por um período de revoltas e ser punida algumas vezes por insolência, ela entendeu que teria que sossegar o facho se quisesse continuar viva. Ela ficou mais doce e começou a chamar a atenção dos tutores porque se revelou muito alegre e espontânea. Aleksandra também era chamada de Roxelana, um apelido que se referia as sua origem russa.mulher mais influente do império otomano

Com o consentimento da Valide Sultan, mãe de Süleyman, Aleksandra foi escolhida para ser apresentada ao sultão, conseguiu se destacar entre as outras moças e ele a escolheu pra ser a sua companhia da noite. Acho que nunca existiu uma sogra mais arrependida na história da humanidade.

Pensa no homem  mais cegamente apaixonado que você já viu. Pensou? O sultão ficou desse tipo. Ele rebatizou Aleksandra com o nome de Hürrem, que significa cheia de alegria. Süleyman escrevia versos pra ela e fazia ele mesmo jóias pra dar de presente à sua nova concubina. Em pouco tempo, ela se tornou a preferida das preferidas e não só abafou completamente a influência da sogra como desbancou a primeira esposa do sultão e o convenceu a mandá-la pra uma província distante, junto com seu primogênito Mustafa.

Hürrem foi a primeira escrava a se casar oficialmente com um sultão e ser alforriada por ele. Passou a ser chamada de Sultana, foi a primeira esposa a ter uma festa de casamento e ignorou a antiga regra de um único filho por mulher para ter cinco: quatro meninos e uma menina.

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Süleyman <3 Hürrem

Ela ganhou uma equipe enorme de servos, incluindo cabeleireiros e estilitas, andava coberta de jóias e entrava e saia do palácio quando bem entendesse. Mas ela fez muito mais do que ostentar sua posição e quebrar protocolos. Hürrem interferia diretamente em assuntos do império e nas relações com outros povos, escrevendo cartas de próprio punho para governantes e embaixadores de regiões vizinhas. E ela foi muito mais longe: plantou uma sementinha do mal na cabeça do sultão que o levou a deserdar e depois mandar executar seu próprio filho Mustafa que, segundo ela, conspirava pra tomar o trono do pai. Credo.

Tudo o que ela queria era conquistar o mais poderoso título que uma mulher do Império poderia ter: Valide Sultan. Com Mustafa fora do caminho, um de seus filhos poderia assumir o trono. E isso aconteceu. Selim II, filho de Hürrem e Süleyman se tornou sultão, mas ela nunca chegou a ser Valide Sultan. Hurrëm morreu de uma doença misteriosa, oito anos antes do filho assumir o sultanato.

É uma história tão forte que virou tema de vários livros e até de uma série/novela turca.

Muhteşem Yüzyıl teve 4 temporadas, passou na TV entre 2011 e 2014 e foi sucesso absoluto de audiência. É uma coisa meio Game of Thrones, meio The Tudors, meio A Usurpadora. Irresistível.

Eu estava na Turquia na época de final de temporada e vi de perto a comoção nacional, tipo final de Avenida Brasil. Da TV do hotel, eu assistia vidrada aos capítulos da Sultana, mesmo sem entender nenhuma palavrinha. Você consegue adivinhar quem era a Hürem no poster aí embaixo?

Harém de Istambul Turquia

Olha  a alegria dela conseguindo todos os kabuletim que ela queria (seja lá o que for um kabuletim).

10. Os turcos de hoje em dia têm só uma esposa

Se mesmo depois de ler isso tudo, você tá aí pensando “Oba! vou pra Turquia montar minha coleção de mulheres.”, primeiramente, tome vergonha na cara. Segundamente, pode tirar seu cavalinho de Tróia da chuva porque, hoje em dia, os turcos têm só uma esposa com quem costumam ficar casados pela vida toda. Desde de 1926, a poligamia é ilegal na Turquia, por decisão do presidente mais pop-star de todos, o Atatürk, que você pode conhecer melhor aqui.

Quando estiver em Istambul, você pode visitar o harém do Palácio TopKapi e também o harém do palácio otomano mais recente, o Dolmabahçe.

 

Harém Tuqruia
Essa somo nozes no Pátio do Harém do Palácio Topkapi

Nos dois casos, é preciso pagar uma taxa extra pra entrar, mas  no seu lugar, eu não perderia de jeito nenhum porque são palácios muito completamente e absurdamente deslumbrantes. Se precisar de mais um motivo pra vistar, pensa só: se você leu esse post até aqui, é porque você gosta de histórias. E história é o que não falta nos haréns de Istambul.

topkapi_palácio harém Iatambuk turquia

Aqui tem mais posts sobre a Turquia que você talvez goste. Dá uma olhada:

O que vestir pra entrar na Mesquita Azul 

Turquia no inverno versus Turquia no verão.

 

Além das histórias que eu ouvi lá em Istambul, pra escrever esse artigo eu usei como base esta publicação da Revista Mundo Estranho e confirmei algumas informações históricas no All About Turkey também. Outras fontes estão linkadas ao longo do texto. Mas se você souber de uma versão diferentes dos fatos, é só me contar, aí nos comentários.  🙂

 

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  • Dhebora Sancho

    Acabei de descobrir que toda a ideia que eu tinha de um harém estava completamente errada! Obrigada por isso! Hahahaha… adorei aprender um pouquinho sobre isso! Agora, fico imaginando 1000 mulheres juntas… hahaha

  • Dhebora, a visão que a gente tem dos hamréns é bem esteriotipada mesmo. Fiquei boba com tudo o que aprendi lá. Fico imaginando tanta coisa que eu penso que sei sobre outras culturas e o quando ainda falta pra descobrir. Também não pude deixar de imaginar 1000 TPM alinhadas. Socorro! Hahaha.

  • Jorginho Rocha Higa

    Carambaaa…quanta coisa que eu não fazia nem ideia, ou imaginava completamente diferente. Rsrs. Muito legal e interessante. Ótimo texto!bjs

    • Obrigada demais, Jorginho! Eu também não fazia ideia dessas coisas até pisar no harém do Topkapi. A Turquia foi a viagem mais cheia de descobertas da minha vida. 🙂

  • Camila Pereira

    Esse post é interessantíssimo! Desmistifica uma série de ideias que a gente tem e ainda traz um monte de informação nova.
    Simplesmente amei!
    Parabéns pelo relato!!!
    Bjos

    • Que bom, Camila! Fico felizona que tenha gostado! Depois de aprender tanto e ficar tão fascinada com as histórias, eu não tinha como não compartilhar. 🙂

  • Thiago Carvalho

    Simplesmente fantástico! Não tinha a menor ideia de 90% do que está escrito e, de fato, desmistifica inúmeros preconceitos que tinha. Parabéns pelo excelente e muito bem escrito post! Grande beijo.

    • Aeee! Obrigada, Thiago! Derrubar preconceitos é uma coisas mais legais de viajar, né? Amo quando acontece comigo. 🙂

  • liviazac

    Nossa , quanta coisa interessante, não sabia nada sobre o harém hahaha adorei! Ficou show! Bjoo

  • Tik de Viagem

    Nossa, que loucura!! Realmente quando de fala em harém, pensamos em bagunça, como vc cita festinha no apê hahahah! Muito bem escrito!

    • Obrigada, Tik! hahah. Onde tem mãe com plenos poderes, filhinho não faz bagunça, haaha.

      • Tik de Viagem

        É isso mesmo!!! Hahahahah