Fazer um banho turco vale a pena? Um relato sincero

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hall do kiliç pasa hamami
hall do kiliç pasa hamami

Sentada, tomando um çay numa das mesinhas do hall de espera do mais lendário banho turco de Istambul, eu chacoalhava as minhas pernas sem nem perceber, enquanto esperava minha vez.

Eu bem que tentei, mas não consegui disfarçar minha ansiedade. Pode parecer exagero, mas se você é alguém com mais de 3 anos de idade e estiver prestes a ser lavado da cabeça aos pés por uma outra pessoa, aposto que você também vai se sentir assim.

No Kılıç Ali Paşa Hamamı a atmosfera inspirava um estado completamente oposto ao que, naquele momento, era o meu. Um cheiro bem suave pairava no ar do salão de pedra erguido em 1580 e uma fonte central jorrava água fresquinha, enquanto mulheres enroladas em toalhas, estiradas em almofadas macias conversavam, bebericando e petiscando, com cara de que não queriam estar em nenhum outro lugar do mundo. Elas tinham acabado de sair de onde, em poucos minutos, eu iria entrar. A expressão no rosto delas era um sinal de que não havia com o que me preocupar. A ficha que eu preenchia detalhando meu estado de saúde, incluindo uma caixinha para pressão baixa e tendência a desmaios, me dizia o contrário.

relato da minha experiência num banho turco
foto: Ahmet Ertuğ

Antes de me sentar ali eu fui conduzida até o mezanino pra pendurar minha roupa, calçar um par de chinelos e me enrolar numa toalha também.

É proibido tirar fotos ou filmar o que acontece dentro de um banho turco por motivos de gente pelada.

Na verdade, não tão pelada assim, já que é obrigatório o uso da parte de baixo. Mas de qualquer jeito, como era de se esperar, eu não tinha encontrado pela internet nada como um vlog que mostrasse exatamente como é aquilo tudo na prática. “Tem um momento que não é nada agradável, mas vale a pena. Você tem que ir pra entender.” foi tudo o que eu ouvi quando pedi detalhes da experiência pra minha irmã, que iria me acompanhar e já tinha feito um hamam – o nome turco do banho turco. Parte de mim queria manter o mistério, a outra parte estava doida pra interromper o descanso das moças recém-banhadas com um “conte-me tudo, não esconda nada.”

Foi quando… eita! Chamaram meu nome.

This photo of Kilic Ali Pasa Hamami is courtesy of TripAdvisor

Na soleira da porta de entrada para a parte secreta do hamam, Ceyda, uma moça de sorriso simpático e braços fortes se apresentou,  me levou até uma câmera cheia de chuveiros e disse, em inglês com uma delícia de sotaque turco: “Shower, Gabriela! Please.” Depois de uma ducha rápida, me enrolei de novo na toalha e ela me conduziu por um corredor estreito até chegarmos a uma enorme e extremamente maravilhosa sala de mármore branco, com um teto abobadado, salpicado estrelas vazadas por onde a luz do sol entrava formando feixes brilhantes no meio do vapor.

Ceyda sugeriu que eu me deitasse no hexágono de mármore quente no centro da sala. Em cada canto, uma banhista cumpria o ritual do hamam com uma cliente diferente, todas já sem a parte de cima de seus biquínis e, aparentemente, sem nenhum constrangimento ou preocupação com as outras mulheres ao redor. Ali, pra mim, já não existia mais receio algum. Fiquei por uns bons minutos admirando as estrelas do teto, sentindo meus poros e minha mente se abrindo. Fui tomada por uma moleza no corpo e um sentimento de gratidão pelo privilégio de estar num lugar tão lindo, vivendo uma experiência tão fora do meu comum.

vale a pena fazer banho turco em Istambul
foto: 91days.com

“Gabriela! Come, please!” Ceyda me despertou do meu mini transe, enquanto me ajudava a me levantar, me apoiando pelo braço e me levando até um banco, ao lado de uma espécie de pia de pedra com torneira dourada. Ela jogou um pouco de água fria em mim, talvez pra me tirar do estado de gelatina em que eu encontrava e me preparar para o que viria a seguir: uma cruel e completamente impiedosa esfoliação. Sim, essa é a parte “nada agradável” da experiência.

A sensação é de ter o corpo todinho esfregado, sem trégua, por uma lixa de parede.

O rosto inclusive. Nas pouca vezes em consegui abrir meus olhos, eu vi minha irmã do outro lado da sala rindo das minhas caretas de dor. Não dá pra mentir, é ruim com força. Mas bem quando eu estava a ponto de sair correndo, indignada por ter pago pra sofrer, a esfoliação acabou. E aí veio a parte boa.

Com um saco comprido de pano mergulhando num balde de água com sabão, Ceyda fez um mar de espuma que me cobriu dos pés até o pescoço. Talvez eu estivesse sob efeito das endorfinas de alívio por ter sobrevivido à esfoliação, não sei dizer, só sei que logo em seguida começou a massagem relaxante mais relaxante da minha vida. À medida que a espuma se desfazia com as bolhinhas estourando suavemente na minha pele, Ceyda me cobria de novo com mais espuma e seguia com outra rodada de massagem.

Não sei quantos minutos ficamos nesse processo. Não sei se foi o vapor, o cheirinho suave, o barulho da água, a luz entrando pelas estrelas no teto ou se foi tudo isso junto que dissolveu noção de tempo-espaço.

É como se eu estivesse fora do meu corpo, mas 100% presente.

Não dá pra explicar. Depois lavar meu cabelo com cuidado, Ceyda me enxaguou e me deu a triste notícia: acabou. Ela me pegou pela mão de novo e me levou até outra salinha onde me secou,  me envolveu num pano macio e enrolou meu cabelo numa versão menor do mesmo pano. Pensei em propor sociedade pra abrirmos  um hamam no Brasil, de preferência do lado da minha casa, mas não tive forças pra verbalizar nada além de “Obrigada, Ceyda.” em português mesmo.

Ela sorriu e levou uma versão cambaleante de mim para sala de pedra lá do início, onde eu me tornei uma daquelas moças estiradas nas almofadas com cara de que não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.

hall do kiliç pasa hamami
foto: Ahmet Ertuğ

Agora vamos às dicas práticas:

Fazer um banho turco vale a pena?

Acho que ficou claro que, pra mim a resposta é sim, né? Mas antes de decidir se vale mesmo a pena pra você, é importante levar em conta algumas coisinhas.

Banho turco é caro?

Eu não considero barato um valor de 270 LT (cerca de R$ 190 na cotação de janeiro de 2019). Mas com certeza vale cada centavo. Se eu fosse você, me organizaria pra ir com com esse valor especialmente separado pra viver a experiência de um hamam.

Qualquer um pode fazer um banho turco?

Sim, desde que esteja bem de saúde. Lembre-se que o ambiente é muito quente, muito úmido e o ritual é intenso. Se você tem pressão baixa demais ou problemas respiratórios, pense duas vezes, pergunte a opinião do seu médico, pelo amor e Deus, não vá desmaiar lá dentro. Atenção especial também pra quem tem pele sensível ou alergias.

Se você estiver com algum corte ou qualquer tipo de machucado, avise e use um curativo, se possível. Se não for possível, é provável que nem te deixem entrar.

Outra coisa importante: não vá de barriga vazia, mas também não muito cheia.

Homens também podem fazer?

Podem sim, claro. Em muitos hamams, exitem áreas distintas para homens e mulheres. No Kiliç Ali Paşa Hamami, a separação é por horários de atendimento.

Mulheres – das 8h da manhã às 16h.

Homens – das 16h30 às 23h30.

Importante: tem que fazer reserva. Pra isso é só clicar aqui.

A pele fica irritada?

A minha ficou maravilhosamente macia por dias e dias seguidos.

Existem outros hamams em Istambul?

Existem muitos. Mas eu só fui neste, então não posso recomendar outros.

Onde fica o Kiliç Ali Paşa Hamami?

O endereço é: Kemankeş Karamustafa Paşa Mahallesi, Hamam Sk. No:1, 34425 Beyoğlu/İstanbul, Turquia.

onde fica o kiliç pasa hamami

Você está ganhando alguma coisa por isso?

Eu não, mas adoraria. Kiliç, me nota!

É isso! Espero que tenha sido útil.

Se você está de viagem marcada pra Istambul, saiba que a coisa que mais tem aqui nesse blog é post sobre essa cidade sensacional e outros lugares incríveis da Turquia.

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